ORA ET LABORA

ORA ET LABORA
História da vida monástica beneditina na sala capitular de S. Bento de Singeverga da autoria de Claudio Pastro// History of Benedictine monastic life in the Chapter Hall of St. Benedict Singeverga// Geschichte des Benediktiner-monastische Leben in den Kapitelsaal der St. Benedikt von Singeverga

terça-feira, 12 de maio de 2009

Trabalhar em silêncio.


«O abba [Pai em grego - sign. monge ansião de conduta venerável] Isaías disse:

Quando eu era mais jovem residia com o abba Cronios. Nunca me pediu que lhe fizesse um trabalho, apesar da sua idade avançada e da sua débil saúde; levantava-se e logo me servia, a mim e a todos. Depois morei com o abba Teodoro de Fermé, e tão pouco ele me disse alguma vez que fizesse algo; senão que ele próprio tinha o hábito de pôr a mesa e me dizia: "irmão, se queres, vem comer". Um dia respondi-lhe: "Abba, vim ter contigo para te ser útil; porquê nunca me mandas fazer algo?" mas o ancião não respondeu absolutamente nada. Então, eu fui informar os outros ansiãos do que se passava. Estes vieram ter com ele e disseram-lhe: "Abba, o irmão veio, de livre vontade, ter contigo para te ser útil; porque é que nunca lhe dizes que faça alguma coisa?" E o ansião disse-lhes: "sou eu, por acaso, um superior para poder dar-lhe ordens? Pelo que depender de mim, não lhe direi nada; mas se o deseja, ele fará por si mesmo o que deve fazer". A partir desse momento tomei a iniciativa de fazer o que o ansião se dispunha a fazer. Quanto a ele, o que fazia, realizava-o em silêncio; assim me ensinou a trabalhar.»


(Das Sentenças dos Padres do deserto)




Este texto dos inícios da era cristã ensina-nos que muitas vezes, para fazer algo, não precisamos que outros nos digam o que fazer; nem tão pouco precisamos de perguntar, basta estarmos com atenção ao que os outros fazem, para aprendermos a fazê-lo também. Um provérbio bem conhecido diz: a palavra move e o exemplo arrasta. O silêncio reveste-se de uma importância vital. No silêncio apercebemo-nos melhor do que se passa à nossa volta, estamos muito mais sensíveis para saber "escutar" com os outros sentidos, para saber ler a realidade de modo mais verdadeiro. Isto é importante, pois um dos grandes males que nos pode acontecer é vegetar em meros idealismos, formulando bonitas palavras mas que não estão revestidas de vida. S. Bento, um homem que liga a espiritualidade à terra (à nossa realidade, sem utopias), alerta-nos para este perigo. Necessitamos do silêncio, pois através dele vamos ao encontro do nosso eu para nos conhecermos melhor; e assim conheceremos melhor os outros.


Quem está em contacto permanente com o ruido (seja ele de qualquer natureza) vai cair na conta, mais tarde ou mais cedo, que houve coisas importantes na vida (tais como a relação familiar, amigos etc.) que lhe passaram ao lado, simplesmente porque não soube "escutar" com o ouvido interior.


O trabalho é uma dimensão tipicamente humana; sobre todos nós recai a necessidade de prover à nossa própria subsistência. Contudo, o trabalho não se resume totalmente a isso. Como seres humanos que somos, podemos elevar o trabalho a uma categoria superior: o trabalho pode ser visto como liberdade ou emancipação no contexto social, como serviço aos outros, como forma de participação na obra criadora de Deus... deste modo o trabalho é visto de forma positiva. Mas pode acontecer o contrário: eu posso ver o trabalho como uma forma de opressão, príncipalmente se a remuneração não é justa. Também pode acontecer que eu esteja tão absorvido pelo trabalho que me torno um autêntico escravo; passo a dormir mal e a não pensar em mais nada a não ser no que tenho para fazer no dia seguinte. Nesta situação eu vejo o trabalho como se de uma maldição se tratasse. É aqui que a atitude do silêncio ganha a sua importância. Mas não é um silêncio qualquer, é muito mais do que a mera ausência de palavras ou de ruido. É um silêncio que nos deve põr em diálogo conosco próprios.Para os crentes é uma boa oportunidade para Dialogar com Deus [o mais interior da nossa própria interioridade] - discutir com Ele -e deixar que Ele complete o esforço que empenhámos na realização do nosso trabalho, pois Ele reconhece o nosso esforço, mesmo que o resultado final não tenha sido o mais ideal. Para os não crentes o silêncio permite-lhes reconhecer que o seu trabalho é uma forma de mudar o mundo, mudando-os a eles em primeiro lugar. Veremos que com o silêncio o trabalho nos corre melhor, e mais importante do que isso, aperceber-nos-emos que no nosso trabalho vemos sempre a nossa vida em comunhão com os nossos semelhantes.

Quem trabalha só para si, pensando somente no lucro e na satisfação meramente individual torna-se escravo do seu próprio ego, esquecendo-se que o homem se distingue principalmente em duas coisas em relação aos outros animais: na liberdade e no "tu a tu" com Deus.


Para que Deus seja glorificado em tudo. (Regra de S. Bento 57, 9)

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